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Entrevista: Nissim Zuaretz, presidente da Bolsa de Diamantes de Israel, pede uma zona franca

A Bolsa de Diamantes de Israel só conseguirá manter os seus maiores negociantes se o Estado criar uma zona franca para os diamantes, disse-nos o seu presidente, Nissim Zuaretz, em Ramat Gan, a 11 de fevereiro de 2026. Considera que os diamantes criados em laboratório «não são diamante» e garante que os negociantes israelitas cumprem as sanções norte-americanas contra a mercadoria russa. Em julho, demitiu-se antes do fim do mandato; mantém-se no cargo até às eleições previstas para novembro ou dezembro.

Por , gemólogo GIA (GG) · Publicado a · Atualizado a

Ilustração a preto e branco em que só cinco diamantes em bruto de África, cristais cúbicos e octaédricos, mantêm a cor, ao lado das palavras Ramat Gan e bolsa de diamantes
Ilustração NaNa News. Diamantes em bruto de África (três cubos cinzento-amarelados e dois octaedros; o cristal em baixo à esquerda mede cerca de 2,5 mm), fotografia de James St. John, CC BY 2.0, Wikimedia Commons; modificada (recorte, preto e branco, cor seletiva). Estes diamantes não têm qualquer ligação à Bolsa de Ramat Gan.

Vinte anos depois, em Ramat Gan

Encontrámo-nos com Nissim Zuaretz na Bolsa de Diamantes de Israel (Israel Diamond Exchange, IDE), em Ramat Gan, a 11 de fevereiro de 2026. Eu tinha percorrido as suas salas de negociação pela primeira vez vinte anos antes. Eleito sem oposição em maio de 2024 para um mandato de três anos, Zuaretz é o 11.º presidente da Bolsa (Rapaport). Em 2007, foi cofundador da DN Diamonds, especialista em diamantes de grande dimensão com sede na Bolsa e escritórios no Dubai, em Nova Iorque e em Hong Kong; a empresa recebeu três vezes o prémio israelita de exportador de excelência (IDE, Globes).

Da rua Achuzat Bayit a Ramat Gan

O comércio israelita de diamantes nasceu em Telavive. Segundo a cronologia da própria Bolsa, o Israel Diamond Club foi ali fundado a 8 de outubro de 1937 e instalou-se em dezembro de 1947 no n.º 3 da rua Achuzat Bayit. Conta-se no meio que Moshe Schnitzer, que teve um papel ativo na unificação das organizações do setor em 1947 e presidiu à Bolsa de 1967 a 1993, terá pedido primeiro espaço ao presidente da câmara de Telavive, e que este terá recusado por não haver jazidas de diamantes no país. O que está documentado é que, depois de dificuldades com a câmara de Telavive, o presidente da câmara de Ramat Gan, Abraham Krinitzi, propôs a sua cidade, então pouco urbanizada; o contrato dos terrenos foi assinado a 14 de novembro de 1961 (Wikipédia). A primeira torre, Shimshon, foi inaugurada a 24 de outubro de 1968, a Diamond Tower em 1993 e uma sala dedicada ao bruto em 1998.

A indústria foi construída por sobreviventes do Holocausto e imigrantes judeus da Bélgica e dos Países Baixos, que trouxeram consigo o saber da lapidação. Durante décadas, os diamantes foram a única exportação em que Israel tinha um peso real no mercado mundial: em 1986 renderam quase 1,7 mil milhões de dólares, cerca de 24% das exportações do país, segundo o estudo da Biblioteca do Congresso dos EUA. Em 2024 ainda representavam cerca de 8% (Rapaport).

Depois, o modelo mudou. A lapidação dos diamantes mais pequenos passou para centros de menor custo, sobretudo a Índia, onde produzir é mais barato, como Zuaretz explicou ao Globes em 2025. Em dezembro de 2016, o setor assinou um novo acordo com a administração fiscal: os diamantários, que até então pagavam imposto sobre o volume de negócios mesmo nos anos de prejuízo, passariam a ser tributados sobre os lucros (Gems2Jewellery). E o Dubai tornou-se a principal praça: a DMCC anuncia um recorde de 41,7 mil milhões de dólares em comércio de diamantes no emirado em 2025. Zuaretz sabe onde Ramat Gan mantém a vantagem: «Somos os especialistas das pedras grandes. Para as caras, é preciso um lapidador profissional, e uma experiência de uma vida nunca será substituída.»

Diamantes de laboratório: «não é diamante»

Sobre os diamantes criados em laboratório, Zuaretz não tem papas na língua. «Não vem do diamante, não é diamante, não é nada. O verdadeiro diamante vem da terra, onde fica milhões de anos», disse-nos. «Esta coisa horrível de laboratório CVD vende-se a 70 dólares o quilate.» Compara-os ao cristal Swarovski: bonito, mas sem raridade geológica nem peso emocional. Refere propostas em que a conta do restaurante custa mais do que um anel de noivado com diamante de laboratório, ou em que o ouro da montagem vale mais do que a gema. São opiniões e números seus; não verificámos o preço que indica.

A regulamentação caminha para uma distinção mais clara. Na Índia, a norma IS 19469:2025 estabelece que a palavra «diamante», usada sem qualificação, só pode designar um diamante natural, e proíbe termos como «lab diamond» (Bureau of Indian Standards). Em Antuérpia, o laboratório HRD deixou de certificar diamantes de laboratório soltos a 1 de janeiro de 2026, continuando a emitir relatórios para joias que os incluam (AWDC, JCK). Zuaretz espera que o resto do mercado siga o mesmo caminho: «Em breve, em todo o lado, o mercado deixará de chamar “diamante” ao sintético. É como a Swarovski.»

Sanções, África e 25 séculos de comércio

As sanções contra a Rússia redesenharam as rotas de abastecimento. A União Europeia, em coordenação com o G7, proíbe desde 1 de janeiro de 2024 a importação de diamantes russos e, depois, a de diamantes russos transformados em países terceiros: desde 1 de março de 2024 a partir de um quilate e desde 1 de setembro de 2024 a partir de 0,5 quilates (Comissão Europeia).

Zuaretz garante que os negociantes israelitas seguem a linha norte-americana. «A América diz que não podemos negociar com a Rússia, os bancos não enviam o dinheiro. Respeitamos exatamente a palavra e as leis da América», afirmou. «É pena, mas não negociamos mercadoria russa enquanto nada mudar.» Para ele, o futuro está mais a sul: «África é o futuro, controla o mercado porque a Rússia está de fora… Não há sanções para África enquanto houver o Processo de Kimberley.»

A Bolsa também atravessou a guerra. A 19 de junho de 2025, um míssil iraniano atingiu as imediações do complexo da Diamond Tower, em Ramat Gan, partindo vidros em vários edifícios e provocando incêndios, noticiou o The Media Line. «Os mísseis iranianos caíram perto da Bolsa, mas não na Bolsa», disse Zuaretz. Vê no comércio algo mais antigo do que os conflitos atuais: os iranianos chamam ao diamante almas, recorda, e a palavra hebraica yahalom aparece no Livro de Ezequiel. «Nós, diamantários, conhecemo-nos e negociamos juntos há mais de 25 séculos: persas, judeus, árabes, azerbaijanos, bukharianos.»

As máquinas e o olho do diamantário

«Todas as máquinas vêm de Israel e depois copiam-nos», afirma Zuaretz sobre os equipamentos do setor, algo que não conseguimos medir. Cita os colorímetros da Zvi Yehuda, que segundo ele avaliam a cor em segundos; o DiamondWorld descreve um modelo capaz de prever a cor dos diamantes em bruto de D a K. Pela nossa experiência de gemólogos formados pelo GIA, o próprio GIA combina os instrumentos com o juízo dos seus classificadores.

A inteligência artificial, diz, consegue classificar um diamante lapidado, mas não prever o que um cristal em bruto vai dar, por exemplo se acabará VS1 ou SI2 em pureza. «Não há duas pedras iguais… Isto exige uma vida inteira de diamantário.» Lembrando como a invenção do chip do engenheiro francês Roland Moreno caiu no esquecimento, alerta para o risco de perder o saber-fazer e tira uma única conclusão: «A única saída é uma zona franca.» Zuaretz disse-nos também que investe na Kimby.io, uma plataforma que oferece a investidores qualificados a propriedade fracionada de diamantes naturais de grande valor. Mencionamo-lo por transparência quanto aos seus interesses; não é uma recomendação de investimento.

A zona franca, centro do seu pedido

É o centro da sua mensagem. «O governo tem de nos ajudar com a zona franca. Todos os governos ajudam a sua bolsa de diamantes: a Índia com a banca, o Dubai com a isenção de impostos. Israel, zero ajuda», disse Zuaretz. «Sem ajuda, os dez maiores negociantes vão sair.»

O pedido não é novo. Em maio de 2025, disse ao Globes que uma zona franca era «uma questão de vida ou de morte para a indústria». Em setembro de 2025, durante uma visita à Bolsa, o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, anunciou que incluiria no orçamento de 2026 uma proposta para fazer de Israel uma zona franca para os diamantes, projeto liderado por Zuaretz (Rapaport). O modelo é o Dubai: isenção de direitos de importação e exportação, ausência de restrições cambiais e isenção de impostos sobre pessoas e empresas. À data de publicação, não encontrámos confirmação pública de que a zona tenha sido aprovada.

Desde a nossa entrevista, a situação evoluiu. A 26 de julho de 2026, a Rapaport noticiou que Zuaretz se tinha demitido antes do fim do mandato; mantém-se no cargo até à eleição do sucessor, prevista para novembro ou dezembro. Segundo o Ministério da Economia e da Indústria de Israel, citado no mesmo artigo, as exportações israelitas de diamantes lapidados caíram 22% em termos homólogos no primeiro semestre de 2026, para 625,7 milhões de dólares. A IDE voltou também a integrar a Federação Mundial das Bolsas de Diamantes (WFDB), após um ano de ausência.

A nossa opinião

Na nossa opinião, Ramat Gan conserva o que é mais difícil de deslocalizar: o olho e a experiência necessários para comprar um grande diamante em bruto e lapidá-lo bem, e uma praça que diz aplicar as sanções à letra. Mas estes trunfos dependem agora de decisões tomadas fora da Bolsa. A concretização ou não da zona franca, e quem dirigirá a Bolsa depois das eleições, decidirão em grande parte se os maiores negociantes ficam. Vamos acompanhar as duas questões.

David Nataf é gemólogo GIA (GG) e comerciante de gemas. A entrevista decorreu na Bolsa de Diamantes de Israel, em Ramat Gan, a 11 de fevereiro de 2026; as citações foram traduzidas do inglês.

Fontes
  1. Rapaport, “Israel Diamond Exchange Names Nissim Zuaretz as President” (em inglês). rapaport.com, 21 de maio de 2024.
  2. Bolsa de Diamantes de Israel, “Nissim Zuaretz”, página da direção (em inglês). en.isde.co.il, consultado a 26 de setembro de 2026.
  3. Dean Shmuel Elmas, Globes, “Restoring the luster to Israel’s diamond industry” (em inglês). en.globes.co.il, 22 de maio de 2025.
  4. Bolsa de Diamantes de Israel, “Important Dates” (em inglês). en.isde.co.il, consultado a 26 de setembro de 2026.
  5. Bolsa de Diamantes de Israel, “Moshe Schnitzer” (em inglês). en.isde.co.il, consultado a 26 de setembro de 2026.
  6. Wikipédia, “Diamond Exchange District” (em inglês). en.wikipedia.org, consultado a 26 de setembro de 2026.
  7. Biblioteca do Congresso, Israel: A Country Study, “Diamonds” (em inglês). countrystudies.us, 1988.
  8. Gems2Jewellery, “IDE Reaches New Agreement with Tax Authority” (em inglês). gems2jewellery.com, 20 de dezembro de 2016.
  9. DMCC, “DMCC Announces Record USD 41.7 billion in Diamond Trade Through Dubai in 2025”, comunicado (em inglês). dmcc.ae, 13 de julho de 2026.
  10. Bureau of Indian Standards, Standard of the Week: IS 19469:2025 (PDF, em inglês e hindi). www.bis.gov.in, fevereiro de 2026.
  11. AWDC, “World First: Antwerp Diamond Lab HRD Becomes First in the World to End Quality Certification for Loose Synthetic Diamonds” (em inglês). www.awdc.be, consultado a 26 de setembro de 2026.
  12. JCK, “HRD Antwerp to Stop Grading Lab-Grown Diamonds” (em inglês). www.jckonline.com, 23 de junho de 2025.
  13. Comissão Europeia, “Restrictions on diamonds: frequently asked questions” (PDF, em inglês). finance.ec.europa.eu, versão de 17 de dezembro de 2025.
  14. Steven Ganot, The Media Line, “Iran Strikes Israel’s Soroka Hospital, Diamond Exchange; Netanyahu Vows Revenge” (em inglês). themedialine.org, 19 de junho de 2025.
  15. DiamondWorld, “OGI and Zvi Yehuda launch Colorimeter model-F” (em inglês). www.diamondworld.net, consultado a 26 de setembro de 2026.
  16. Leah Meirovich, Rapaport, “Israel Finance Minister Wants Country to Be Free-Trade Zone for Diamonds” (em inglês). rapaport.com, 25 de setembro de 2025.
  17. Joshua Freedman, Rapaport, “Israel Diamond Exchange President Resigns” (em inglês). rapaport.com, 26 de julho de 2026.

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